sábado, 22 de agosto de 2009

Pelos Direitos do Homem !

Depois de “Nunca mais é sexta-feira!” (disco que passou despercebido), José Cid lança ainda no mesmo ano, mas desta vez para uma outra editora, um outro disco que conseguiu suscitar mais interesse do que o certamente esperado. Isto porque o tema de abertura do álbum, igual ao nome com que José Cid baptizou o disco, era, sem sombra de dúvidas, bastante apelativo: “Pelos Direitos do Homem!”, canção que evoca, de forma geral, as violações dos direitos humanos perpetrados durante as grandes guerras e regimes ditatoriais e, em particular, o drama do Massacre de Dili, em Timor e consequentes tumultos que se seguiram entre as milícias Pró-Indonésia e os defensores da independência do povo de Timor-leste. Com a memória do massacre de1991 ainda bem presente e pelo protagonismo que a figura do então prisioneiro Xanana Gusmão inspirava em todo o planeta, enquanto guerrilheiro pela liberdade esperada do povo timorense, Pelos Direitos do Homem acaba por ser, não apenas um mero apelo ao respeito dos direitos humanos, mas também uma homenagem a todos aqueles que “ morreram indefesos e heróicos” vitimas de todos aqueles que promovem guerras e a dor universal”, em detrimento da paz dos povos. Não é por acaso, portanto, que breves referências a Auschwitz, ao Vietnam, à Sibéria e à prisão do Tarrafal, transformam os versos desta canção numa composição cheia de conteúdo à luz da tématica dos direitos do homem. Diga-se, aliás, que em relação à questão de Timor, os versos de Cid são bastante explícitos: “ E se eu fosse um guerrilheiro em Timor, que fuzilassem no alto da falésia/ Eu gritaria de raiva e de dor/ Viva Xanana, abaixo a Indónesia”.
Á semelhança de outros projectos, pois foram muitos os artistas que se uniram à causa timorense, José Cid, atento e pleno de oportunidade, também ele reuniu em sua casa, em Mogofores, Miguel Ângelo (Delfins), Sara Tavares, Olavo Bilac (Santos & Pecadores) e Inês Santos, para juntos cantaram cada um dos versos que compõem esta composição. Para os mais saudosistas, esta canção trata-se de um momento musical que, não se pode dissociar, pelas suas parecenças, com o de 1985, aquando da gravação do single“ Um abraço a Moçambique” que contou a colaboração de mais de uma dezena de artistas, incluindo José Cid, projecto que apelava a uma causa humanitária. Mesmo que em contextos e em épocas diferentes, “Pelos Direitos do Homem!” é uma canção terá que ser considerada necessariamente uma canção de intervenção, gravada numa época em que a liberdade em Portugal, pelo menos de forma aparente, ainda se mantém em Portugal.
Fazendo parte de um disco atípico de José Cid, em que metade dos temas são versões de alguns dos mais conceituados artistas portugueses (como Pedro Abrunhosa, Sérgio Godinho ou Pedro Ayres Magalhães) Pelos Direitos do Homem! ( CD RCA 74321 1350032, também disponível em K7), é uma boa excepção à sonoridade predominante no resto do disco, marcado pelo predomínio das programações rítmicas e sequenciações de Rui Vaz e Francisco Martins. Pelo conjunto de todos os instrumentos tocados, a até pelo lado mais gospel que o seu refrão nos oferece, cremos que a canção Pelos Direitos do Homem !, é a referência e escolha natural para apresentarmos aos nossos leitores enquanto amostra desse trabalho musical de José Cid
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sábado, 8 de agosto de 2009

Na manhã do meu viver

Imediatamente a seguir ao sucesso de José Cid no Festival Eurovisão da Canção de 1980 a sua produção discográfica não se manifestou através da gravação de discos de originais. Nesse ano foram lançados para o mercado o duplo LP “ Os grandes, grandes sucessos de José Cid” ( da Orfeu), bem como a colectânea autorizada pela Valentim de Carvalho à etiqueta brasileira Arlequim, simplesmente denominada “José Cid”( que reunia igualmente alguns dos sucessos de José Cid e dois inéditos ) De igual modo, no ano seguinte, apesar do lançamento do single "Um rock dos bons velhos tempos", optou-se pela mesma linha do ano anterior, com o duplo L.P. “ Grandes Êxitos N.º 2”, que, no fundo, mais não era do que a continuação da colectânea de 1980, embora com a inclusão de alguns temas inéditos. Dessa forma, o regresso de José Cid ao discos de originais só sucedeu em 1982, com o álbum “ Magia” ( Orfeu, FPAT 6020), com arranjos repartidos entre os suspeitos do costume ( José Cid e Mike Sergeant) e ainda Shegundo Galarza, conhecido maestro ( pai do baterista Ramón Galarza) que pontualmente cuidou da direcção artística de alguns dos temas de José Cid nos anos 70 e 80 e, em especial, neste disco.
Com excepção da bonita balada “ Desencontro”, que na altura teve alguma divulgação e sucesso, podemos dizer que “Magia”, não foi, comercialmente, o disco com mais sucesso de José Cid, uma vez que no seu alinhamento não vinha incorporada qualquer canção pop/rock que pudesse transpôr as barreiras rumo ao sucesso. “Magia”, apesar de se considerar um disco de musica ligeira com suaves tendências pop/rock, é, acima de tudo, um disco com um carácter pouco comercial, se atendermos ao alinhamento das canções, quase todas elas calmas canções de amor, sem grandes desenfreadas correrias rítmicas e sem artificios de estúdio. Bem pelo contrário; a predominância do piano de José Cid atravessa quase todo o disco, unido à sua voz, que pela primeira vez, evidencia um José Cid envolto num romantismo jamais evidenciado num LP até então. Os títulos das canções são todos eles sugestivos e a escolha de Shegundo Galarza para conduzir os arranjos (orquestrais) de quatro dos dez temas que compõem o alinhamento do disco, aprofundou ainda mais o romantismo daquele registo musical. Inconscientemente ou não, “Magia” acabou por surgiu em plena década de 80, completamente ao arrepio das expectativas que eram depositadas em José Cid após a sua participação no Festival Eurovisão da Canção. Para quem ansiava pular e saltar com aquele disco, tal não passou de uma autêntica desilusão. No entanto, para aqueles que preferiam uma nova viragem discográfica de D. Camaleão, “Magia” acabou por ser o início das constantes mutações nas roupagens musicais que José Cid foi vestindo e despindo ao longo de toda a década de 80.
“Magia”, não viu até hoje a sua reedição em CD, estando, no entanto já assegurada a total transposição das canções deste disco em formato digital em várias colectâneas, nomeadamente através das Antologias “Nasci para a música” e “Antologia # 2”. A título meramente exemplificativo, deixamos hoje ao ouvinte, um excerto da canção “ Na manhã do meu viver”, composição que apesar de ter sido incluída antes como inédito no duplo LP “ Grandes Êxitos N.º 2”, viu também sua inclusão no álbum “Magia” mais do que justificada pela temática que gira em torno deste disco. Trata-se, conforme já se aflorou em mensagem anterior, de uma canção sucedânea de “ Springtime of my life” ( versão em inglês de “Na manhã do meu viver” ), escrita e gravada sensivelmente um ano antes em Los Angeles para a editora Family e que, curiosamente, só após o lançamento de Magia, veio a ser incluída num disco de José Cid ( mais concretamente “ Portuguesa Bonita”, de 1983). Para além dos já referidos “Magia” e “ Grandes Êxitos N.º 2”,Na manhã do meu viver” pode ser encontrada em excelente qualidade sonora na “Antologia # 2”.

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