sábado, 13 de junho de 2009

Não Convém

A temática dos contrastes civilizacionais tem sido frequentemente cantada em Portugal pelos mais diversos músicos, nomeadamente a partir dos anos 70, década em que, de forma mais sistemática, a verdade nua e crua do estado da nossa civilização passou a estar presente na grande generalidade dos discos lançados para o mercado. Até então aos músicos, nitidamente marcados pelo cenário de um Portugal composto maioritariamente por mulheres vestidas de negro e com um regime político repressivo da liberdade de expressão, pouco restava senão lançar para o mercado discos que manifestamente se destinavam a entreter o povo. Repetidas vezes se ouvia a história do passarinho da ribeira, da Mariazinha que ia à fonte, das memórias de Alfama antiga, ou simplesmente do triste fado que nos perseguia, Sem querer subvalorizar o interesse que atribuímos a esses discos, maioritariamente E.P.'s (que hoje constituem, sem dúvida, a memória dos “sons do nosso antigo quotidiano”) a verdade é que a audição de todos eles jamais poderia conduzir o pensamento do ouvinte para além do significado literal que o próprio título dessas canções incorpora. Vivíamos, com efeito, no tempo da mula da cooperativa e da Rosinha dos Limões, e nada mais parecia haver a fazer quanto a esse facto. Nem as novas tendências yeh yeh se atreviam a desmentir a realidade. Foi preciso, portanto, esperar bastante tempo para que os músicos mais destemidos, de uma forma mais ou menos clandestina (conforme os casos), conseguissem transpor para disco a verdade do Mundo de contrastes em que vivíamos ( e vivemos...), bem como a realidade do próprio Portugal desigual que se escondia por debaixo dos títulos das canções. Com o passar dos anos, e com a liberdade de expressão a ela associada, a temática do contraste entre ricos e pobres, foi naturalmente passando para o universo dos temas normais, e até recorrentes, das canções que a pouco e pouco vão ajudando a construir a própria história da música popular universalizada, de tal forma que hoje a sua aparente banalização acaba também por contribuir para que ninguém repare nelas.
No entanto, também José Cid abordou, em 1971, de forma sublime, esta temática de contrastes entre pessoas que vivem no mesmo mundo mas em condições tão diferentes. Fê-lo, não se limitando a disparar apenas numa determinada direcção, optando antes por recorrer à ironia e também ao apelo à sua própria história de vida, enquanto membro descendente de famílias abastadas de raízes aristocráticas. Para além disso, de forma muito subtil, acrescentou-lhe ainda um outro contraste: o geracional. Através de “Não Convém”, tema de abertura do seu primeiro LP a solo, José Cid aborda as grandes diferenças entre aqueles que, em termos abstractos, teriam tudo para ser os mais felizes do mundo num Portugal economicamente pobre e aqueles outros que não tinham qualquer forma de sobreviver dignamente por esse Mundo fora. José Cid transporta-nos, portanto, para o interior das rotinas e peculiares preocupações de um homem detentor de um palácio, com um iate, um Ferrari e um Rolls Royce, que se dava ao luxo de poder passear todos os dias na Lapa e no Estoril, com duzentas notas de mil. Todavia, apesar de todo esse luxo poder sugerir uma aparente felicidade, o certo é que José Cid não nos conta a história de um homem feliz consigo próprio, bem pelo contrário: as suas interrogações confundem-se com a sua própria revolta interior, não sendo por isso de estranhar que cante o verso“ dás-te ao luxo de também teres solidão”, numa primeira alusão à condição de um homem isolado do mundo real, que apenas ia tendo conhecimento do que se passava “lá fora” através dos jornais. Nem as suas companhias mais chegadas, nomeadamente o seu pai e amigos, estavam preparados para responder às inquietações de um homem com o pensamento notoriamente conturbado pela sua luta interior: nunca mais representar um papel, vestindo a máscara, segundo os parâmetros de riqueza a que fora ensinado a obedecer. É de facto a consciência da vontade de conhecer o outro lado do mundo em que habita que leva o Artista a cantar os seguintes versos : Porém pelo Mundo fora/ há tanta gente que sofre/há tanta gente com fome, solidão/ enquanto tu te passeias/Por Londres ou Chamonix/O Inverno no Algarve ou no Japão/ Pura e simplesmente ignoras/ o que se passa no mundo/ E manténs-te a par de tudo/ pelo que lês nos jornais/ E nada mais, nada mais/ Que mais podes tu fazer? / Perguntas tudo ao teu Pai/ que te não vai responder/ pois não lhe convém/nem convém/ a ninguém”. Mais do que simples constatações de desigualdades entre seres humanos, o Artista oferece-nos também a visão de alguém que, querendo encontrar respostas, é esbarrada na perene afirmação “
Não Convém...nem convém a ninguém...”.
Quase quarenta anos passados já sobre a gravação dessa canção, parece-nos que, sem dúvida, a mesma ainda se mantêm perfeitamente actual. Não querendo em outras considerações que não as meramente musicais, a verdade é que ainda hoje há muita coisa cuja resposta não convém ouvir, mesmo a ninguém. Obviamente que, num Portugal antigo, como era o anterior à Revolução de Abril, não convinha, pelas mais diversas razões, dizer muita coisa, nem sequer ousar pensar. O próprio José Cid, ora a solo, ora com o Quarteto 1111, sentiu bem a força da comissão de Censura Política, quando viu muitas das suas letras e canções serem proibidas pelo Antigo Regime.
Apesar de tudo o que já se referiu sobre essa canção “Não Convém” termina brilhantemente a alusão a uma nova atitude de do personagem da canção, perante tudo o que o rodeava, que a leva a assumir, em jeito de confissão, que, afinal, vivia apenas representando a sua condição de homem rico num país conservador, vivendo de aparências, quando na verdade, já ouvia "Em Órbita" do Rádio Clube Português, em contraste com os seus amigos que, certamente, passavam muitas das tardes a ouvir Emissora Nacional: "
Um certo domingo à tarde/ No sofá do living/ Estás a ouvir “Em Órbita e a pensar/ Os teus amigos chegaram/Não pertencem ao teu Mundo/ Decidiste nunca mais representar.”
“Não Convém”
é, pelas suas palavras e pela beleza proveniente da brilhante orquestração de Pedro Osório, uma das canções que aconselhamos vivamente os leitores a escutarem.
Enquanto a editora que detêm os direitos de comercialização das canções não reedita em CD o primeiro LP de José Cid (que cada vez apreciamos mais e ao qual forçosamente teremos que voltar num futuro próximo), partilhamos com os leitores um excerto da canção, retirada directamente do nosso single “ D. Fulano/Não Convém” (8 E 006 – 40144), cujo vinil assume já contornos de raridade, tanto mais que a única versão que conhecemos é a versão “angolana”, não nos tendo sido nunca reportada a existência de qualquer versão portuguesa desse single. Curiosamente, apesar de ter sido tema de abertura do álbum “José Cid (Palha)”,Não Convém” figurou apenas como lado B do single de apresentação do disco, “ D. Fulano/Não Convém” e não como lado A, como justamente merecia... Talvez porque não conviesse a ninguém...

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segunda-feira, 1 de junho de 2009

Un grand, grand amour

Não se pense que a nova tentativa de internacionalização de José Cid, após a sua participação no festival da Eurovisão da Canção, se ficou pela versão em inglês do tema “ Um grande, grande amor” ( We'll meet again). Na verdade, para além de meses mais tarde ter lançado para o mercado o LP “My music” (com grande sucesso no mercado australiano, facto que mais para a frente analisaremos), José Cid não hesitou em lançar para o mercado francês, aquele que é, até à presente data, o seu único single no qual canta um tema em francês: “Un grand, grand amour”, precisamente a versão do tema que José Cid levou ao Festival Eurovisão meses antes ! A outra face do disco, é preenchida, mais uma vez, pelo tema “Barbara”, tema este que, aliás, foi sempre o escolhido por José Cid para figurar como lado B em todos os singles que conhecemos do tema “Um grande, grande amor”.
Certamente também que muitos dos ouvintes que antes se surpreenderam com a versão inglesa de “Um grande, grande amor”, estranharão agora José Cid cantar num idioma que, pelo menos em termos de registos fonográficos do Artista, é de todo desconhecido pelo grande público. Contudo, a relação de José Cid com a língua francesa (apesar de ter manifestamente menos peso comparativamente com a sua relação com a língua inglesa ) não lhe é totalmente estranha. Com efeito, apesar de até 1980 José Cid nunca ter gravado em francês, já duas décadas antes, em 1968, Cid compôs para Tonicha dois temas em francês, que esta gravou no seu E.P. “Tonicha Canta Canções de José Cid” : La Mansarde" e "Emporte-Moi Loin d'Ici”. Por outro lado, também nos longínquos tempos idos de José Cid em Coimbra, com a Orquestra Ligeira do Orfeon Académico, era frequente José Cid cantar versões de temas ( da chanson) em lingua francesa.
Apesar de não ser um facto muito divulgado, também consta que, com o Quarteto 1111, José Cid também terá gravado em francês, pelo menos a julgar pela banda sonora( não editada) do filme “O Cerco", de António da Cunha Telles, onde se ouvem composições do Quarteto 1111 em francês. De qualquer das formas, para a história como uníco registo em francês de José Cid, fica então “ Un grand, grand amour”, com letra de José Cid em parceria com André Cleargeat e orquestrações de Mike Sergeant, como não podia deixar de ser.
A versão francesa de “Um grande, grande amor”, foi editada em 1980, pela etiqueta Vogue ( VG 108 -101318- que já antes havia editado “Portugal, Portugal, Portugal/ Olinda, A Cigana”). Esta versão, enquanto single, não teve grande expressão em termos de vendas, leia-se sucesso, não deixando,contudo, de configurar mais uma curiosidade da carreira discográfica de José Cid que nos apráz salientar.

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