sábado, 10 de janeiro de 2009

José Cid, Camões, as Descobertas e Nós...

Regressamos hoje com uma “Profecia” enunciada há mais de 500 anos : “ Na memória do nosso povo fica a Ilha dos amantes”. Façamos primeiro uma viagem por esses mares nunca dantes navegados e embarquemos nas naus de Dinis Dias, Diogo Cão, Pêro da Covilhã, João de Santarém e Pedro Escobar e redescubramos essas terras de África outrora virgens...
Viajemos também na companhia de José Cid & Amigos para além do Cabo das Tormentas e, através deles, descubramos de novo que existem outros povos, outras raças e outros usos, neste mundo imenso, tão vasto, onde a força de uns se confunde tantas vezes com a opressão de outros tantos. Por isso, invoquemos o nosso passado antes de escutarmos este tema que hoje partilhamos consigo... Lembremo-nos ainda dos sonhos do nosso Infante, e da orgulhosa história da nossa expansão. Lembremo-nos de tudo isso mas sem esquecer os gentios povos de Cabo Verde e Guiné, de Malaca, Timor, Goa, Damão, Angola, Moçambique e outros tantos, onde os nossos valentes marinheiros, exaustos, chegavam para colocarem os seus padrões. Não esqueçamos também que tão negra era a pele desses povos e que tão lindo era o seu cantar antes de lhes impormos a nossa lei e de lhes ditarmos a nossa fé durante mais de quinhentos anos.
Não esqueçamos também Luís de Camões e os Lusíadas, obra magistral da literatura mundial, da qual José Cid se socorre para ilustrar as imagens sonoras do seu disco de 1992 “ Camões, as Descobertas e Nós” ( LP - Polygram 512 638 ), a nosso ver um dos melhores discos de sempre de José Cid, infelizmente e incompreensivelmente tão pouco divulgado.
Caro leitor, não pense que estamos a exagerar... Por um lado, no nosso panorama musical são ainda poucas as obras de referência dedicadas às epopeias dos portugueses e, em particular, aos Descobrimentos. Se retirarmos da nossa memória discos incontornáveis como “Por este rio acima” e “ Crónicas da terra ardente”, ambos de Fausto Bordalo Dias, ou ainda o “Auto da Pimenta” de Rui Veloso, resta-nos escassos registos sonoros alusivos aos nossos Descobrimentos. Se pensarmos que não existe ainda em Portugal uma sinfonia ou um disco integralmente dedicado aos Lusíadas de Luís de Camões, a situação atinge contornos mais graves.
Pois bem, o disco que hoje apresentamos aos nossos leitores deveria ser um disco de referência das nossas discotecas. Primeiro, porque José Cid, reúne (em sua casa!) num mesmo trabalho vozes como as de Carlos do Carmo, Paulo Bragança, Jorge Palma, António Pinto Basto, Rita Guerra, João Paulo e A Praia Lusitana. Como se não bastasse, no mesmo disco encontramos músicos instrumentistas como Pedro Caldeira Cabral, José Luís Nobre Costa, Tó da Braguesa e o próprio José Cid nos coros, cítara indiana (!) e, claro, sintetizadores. Em segundo lugar, porque qualquer fã incondicional de Jorge Palma gostaria de ouvi-lo a cantar Luís de Camões e o mesmo podemos dizer dos seguidores de Carlos do Carmo, António Pinto Basto, Paulo Bragança ou Rita Guerra. Sem dúvida, grandes amigos que José Cid tem! A terceira (e principal razão) que nos leva a propor imediatamente publicidade editorial a este disco é a sua indiscutível qualidade. Acredite, leitor, que quem ouve este disco viaja sem dúvida no tempo, numa mistura instrumental sublime, onde as guitarras portuguesas e os sons produzidos por José Cid se cruzam criando um verdadeiro ambiente de passeio marítimo sem sequer sair no sofá.
Confessamos que foi muito difícil escolher o tema deste disco que melhor o ilustrasse. Podíamos ter optado pelo Prólogo, no qual José Cid, presta homenagem ao Infante D. Henrique, ou pelo tão conseguido “Armas e barões assinalados”, cantado por António Pinto Basto.Como já se fazia noite, optamos, por fim, por seleccionar o tema “Profecia”, com letra e música de José Cid. Para além de ser um tema muito original, mais original ainda é, sem dúvida, a pessoa que José Cid escolheu para interpretar essa canção: Nada mais do que Carlos do Carmo, a Voz do Fado, num registo vocal surpreendente, onde as sonoridades africanas predominam, não fosse a letra da música toda ela dedicada a África.
Somos sinceros, podíamos bem ter optado por um tema de José Cid a cantar, pois neste disco José Cid deixa a seu cargo duas canções. No entanto, sejamos realistas: Que melhor voz encontraríamos no panorama musical português para nos declamar esta letra de José Cid ? Acreditamos que nenhuma outra :Carlos do Carmo, é Carlos do Carmo. Ponto Final.
Não podemos deixar de transcrever a letra desta profecia que por si só já nos deixa muito que pensar:
Estes povos são gentios/ de Cabo Verde e Guiné/ é tão lindo o seu cantar/ é tão negra a sua pele/ Vou impor-lhes minha lei e ditar-lhes a minha fé/ Daqui por quinhentos anos vamos lá ver como é/ Estas praias onde chego/ são de Angola e Moçambique/ não sei se as abandono ou não sei se por cá me fique/ Daqui por quinhentos anos nada será como dantes/ na memoria do meu povo fica a ilha dos Amantes. Na memória do meu povo fica a ilha dos Amores/ daqui por quinhentos anos já não há Adamastor/ De Malaca até Timor/ e de Goa até Damão/ só a terra me dá vida/ esta nau é um caixão.
É evidente que a letra da canção fala por si e que já nos faz pensar em muita coisa. Não temos dúvidas que a profecia se cumpriu, pois do “vasto império” só nos resta mesmo a Ilha dos Amores. Mas não podemos deixar de nos despedirmos sem uma última reflexão: um português fadista a cantar música africana não será também o culminar de uma profecia?

Clique no play para ouvir um excerto da canção

Imagens reproduzidas da colecção particular do autor


6 comentários:

Anónimo disse...

Adorava poder ouvir isto...mas aonde encontrar? Porque não partilham estas preciosidades? A "obra menor" do Zé anda praí aos montes pela rede,macacos, favas, cabana,... este álbum que me parece interessantíssimo não se encontra à venda em 2009...

Pedro disse...

Boa tarde. Obrigado pela visita. O objectivo do blogue não é proceder à partilha de música, pois não fomentamos partilhas (ilegais) de ficheiros. No entanto, compreendo perfeitamente a sua indignação. Este disco ( e outros) é totalmente impossivel de encontrar à venda em lojas de musica o que é uma vergonha para todos aqueles que queiram conhecer a obra de José Cid. Existe uma versão CD e a versão Vinil, a quaç que possuo e da qual retirei o excerto da canção. É um disco excelente e o meu ver o melhor desde "10 mil anos entre Venus e Marte", num registo totalmente diferente.Um abraço.

Carlos Ramiro disse...

Eu queria encontrar este disco... Aos anos que eu o procuro nunca o encontro, por favor ajude-me a encontrá-lo... A encontrar estas magníficas composições... para a obra de um poeta não menos magnífico...

H Carlos Castro disse...

Este álbum é fantástico. Por favor não se trata de "ilegalidade". Isto é algo completamente fora do circuito comercial, como diz. Seria um grande serviço à comunidade que prestaria se o partilhasse e nós ficar-lhe-íamos eternamente agradecido e até o próprio José Cid gostaria de ver o seu disco divulgado, pois ele tem plena noção de que é uma obra de bastante qualidade que não é possível de encontrar...

Se quiser falar sobre questões do álbum, entre em contacto comigo hcarloscastro@hotmail.com

João Pedro disse...

Boa noite, peço desculpas pelos longos meses em repsonder. Se quiser mande um e-mail para os contactos e satisfaço a sua curiosidade. Obrigado.

Já agora, este disco existe também em formato K7.

Anónimo disse...

Olá tenho um disco do Cid que não encontro muita informação na web... Será que me podem ajudar? Podem-me contactar para ivoconceicao@yahoo.com? Obrigado