sexta-feira, 10 de abril de 2009

Baile no liceu

Viajemos alguns anos no tempo e ancoremos no contexto do rock português e na importância que os (antigos) bailes de liceu tiveram para o crescimento da nossa cultura musical, principalmente nos finais dos anos 70, década que coincidiu com o boom do rock português e com o surgimento dos primeiros grupos portugueses de “rock de massas”. Quem felizmente viveu essa época, até cerca de meados dos anos 80, teve certamente o privilégio de assistir a esses concertos e hoje pode recordar com saudade os tempos em que os Bailes de Finalistas eram os acontecimentos musicais do ano nas diversas escolas e regiões circundantes. Nessas noites, novos grupos de guedelhudos portugueses animavam as festas dos estudantes, sendo frequentadores habituais dos bailes do liceu formações como os UHF, Arte & Ofício, Jafumega, Xutos e Pontapés, entre outras tantas, sem nunca esquecer aquela que terá sido uma das melhores bandas portuguesas de rock de sempre, mais o seu ambiente de autêntico bacanal musical que só os seus concertos podiam proporcionar: a Go Graal Blues Band ( de Paulo Gonzo).
Numa altura em que se aproximam já os Bailes de Finalistas e a mega festas das Queimas das Fitas das nossas universidades, com o divertimento garantido que as mesmas arrastam consigo, impõe-se uma referência obrigatória a uma das canções de José Cid que mais se adequam a esta época festiva. Falamos de “Baile no Liceu”, com arranjos e direcção musical de José Cid e Mike Sergeant, lado B do single“ Um rock dos bons velhos tempos”, lançado em 1981 (Orfeu GSAT 9002, também disponível em “ Os Grandes Êxitos de José Cid N.º 2” e “Antologia Vol. II”) Ao contrário dos tempos de hoje, onde a música electrónica e hip-hop imperam nas festas de liceu, nos anos 70 e 80, o rock & roll era o símbolo da irreverência estudantil e seus acelerados compassos excelentes pretextos para por de lado a trigonometria, a matemática e a filosofia, e acordar no dia seguinte com uma bela ressaca com riffs de guitarra ainda a tilintar nos ouvidos. Nesses tempos idos, não eram só frequentes os Bailes de Finalistas, como também outros bailes de liceu, nomeadamente o Baile de Natal e o Baile de Fim de Ano, bem como outros bailes que as Associações de Estudantes de cada escola organizavam. Também no nosso tempo (não tão longínquo assim) foram organizados alguns bailes de liceu, embora dominados já por um rock mais alternativo (soando já quase a death metal), em contraste com o ambiente da altura em que José Cid compôs esta canção. Nos tempos de hoje, com a expansão das discotecas e bares onde toda a gente pode dançar livremente, a importância dos bailes de liceu, caiu inegavelmente para um segundo plano. Dessa forma, talvez já não exista a natural luta entre colegas de turma para na noite de baile de liceu dançarem com a miúda mais gira de toda a turma inteira, conforme José Cid canta nesta canção. Como é evidente, não podemos criticar esta nova atitude, pois tal é fruto da mudança do tempo e dos hábitos sociais e musicais que a própria evolução da cultura
actualmente nos oferece. Assim, só nos resta evocar, através da mensagem de hoje, esses tempos idos, que infelizmente não pudemos viver devido à nossa abençoada juventude, pelo que nos socorremos hoje do excelente retrato sonoro que José Cid nos oferece com a canção “Baile no liceu”, num registo de rock and roll clássico, com arranjos que ilustram bem o ambiente manifestamente juvenil que se pretendeu recriar com esta canção.

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