quinta-feira, 26 de março de 2009

O CAOS

Existem duas categorias assumidas de admiradores de José Cid : num lado, a maioria, aqueles que apreciam as suas baladas e canções populares e, num extremo totalmente oposto, a minoria, constituída por rockeiros, que se limitam apenas a apreciar, sem nada mais quererem conhecer, duas das obras de referência do rock português assinadas por José Cid: a obra-ensaio “ Onde, Como, Quando, Porque, Cantamos Pessoas Vivas”, em colaboração com o Quarteto 1111, lançado para o mercado em 1975, e o magnífico disco “10000 anos depois entre Vénus e Marte”, de 1978, pela etiqueta Orfeu ( FPAT-6001). É sobre este último que nos debruçaremos hoje sem, contudo,nos querermos incluir em qualquer uma dessas categorias estereotipadas de admiradores de José Cid, uma vez que temos precisamente por objectivo demonstrar que as canções de José Cid não se resumem apenas a essas duas categorias musicais.
"10 000 anos depois entre Vénus e Marte" é, sem dúvida alguma, o disco mais conhecido de José Cid no Mundo inteiro, o mais procurado e, claro, o mais apreciado. No entanto, num sentido diametralmente inverso, em Portugal continua a ser dos álbuns de José Cid menos conhecidos pela generalidade do público. Para esse facto, contribuíram diversos factores: desde logo o pensamento geral de que a música portuguesa (só por ser portuguesa) não presta e que jamais os portugueses conseguem criar grandes obras ou composições musicais. A música estrangeira que invade as rádios do nosso Portugal é um reflexo dessa maneira de pensar, facto que nos preocupa, quanto mais quando sabemos que lá fora, a música portuguesa, nomeadamente a de raiz popular, é sobejamente apreciada. Por outro lado, a ideia (errada) da grande maioria da população de que música de José Cid se resume a canções como “ Favas com Chouriço ” ou “Como o macaco gosta de banana”, também contribuiu para que durante quase duas décadas o disco "10000 anos depois entre Vénus e Marte", tivesse sido esquecido pela Editora e colocado nas prateleiras de discos que estariam irremediavelmente condenados a apodrecer junto ao pó do vinil, sem reedição em CD. A tudo isso acresce ainda a conjuntura do panorama musical português aquando do lançamento de 10000 anos entre Vénus e Marte, que convém salientar: Se por um lado a mal preparada crítica de então recebeu com desconfiança este arrojado trabalho de José Cid, arrasando-o por completo, não deixa de ser menos verdade que a politização da música portuguesa que se seguiu aos anos imediatamente a seguir ao 25 de Abril de 1974, corporizada em alguns trabalhos brilhantes dos chamados cantautores, aliada ao surgimento do rock de massas, não deixava antever qualquer espaço comercial para um disco tão arrojado e moderno como o foi na altura 10000 anos depois entre Vénus e Marte. Na verdade, José Cid, pese embora o carácter vanguardista a que sempre esteve associado em tudo o que tinha feito até então, ora com o Quarteto 1111, ora a solo, sempre foi posto de lado pelos novos donos da música do pós 25 de Abril, tendo sido rapidamente marginalizado por não se associar, quer em termos pessoais, quer em termos musicais, a qualquer lado da barricada, nomeadamente a música de propaganda da política de esquerda. Na verdade, José Cid foi dos poucos músicos cujo talento conseguiu transitar de forma incólume do antes para o pós 25 de Abril, sem qualquer preocupação que não a de apenas compor musica. Fontes muito próximas do Autor confirmam uma certa tendência para a marginalização de José Cid, enquanto músico que não pertencia ao sistema que se pretendia criar então e de um quase total boicote aos caminhos ultra visionários que era sua intenção seguir.Não estranhou, portanto, que 10000 anos depois entre Vénus e Marte fosse um verdadeiro fracasso comercial, pouco divulgado, que esteve quase a ser rejeitado pela editora Orfeu, a qual, apesar da aposta na qualidade patente nos ilustres artistas que representava na altura, talvez não fosse a editora mais adequada para José Cid se aventurar nos caminhos do rock sinfónico, vertente musical que pretendia na altura explorar. Por mera curiosidade, e por exigência de José Cid, a versão final do disco, em capa gatefold, vinha acompanhada por um livro de 6 páginas, com um banda desenhada de vivas cores, que aumentou de tal forma os custos de fabrico da arte final da capa do disco, de forma que, ao artista foi comunicado que não havia dinheiro para pagar tal impressão. Tal facto, contribuiu para que José Cid tenha decidido abdicar de todos os seus direitos comerciais pelo lançamento do disco( leia-se “dinheiros”), não recebendo nada em troca, que não a garantia de que o disco seria lançado para o mercado. Só esse gesto de amor é que tornou possível que a obra se tornasse uma realidade. Com 10 mil anos depois entre Vénus e Marte, José Cid provou de forma clara que, em termos musicais, também já se encontrava efectivamente numa outra galáxia, à semelhança da história que narra no albúm. Se, é verdade que tentativas esporádicas de algum rock progressivo já tinham sido ensaiadas antes de 1978, é com este trabalho musical que o rock progressivo em Portugal atinge o seu clímax. José Cid, apresenta-nos um belo trabalho de rock espacial (que bem poderia ser a banda sonora de um filme de ficção cientifica) centrado numa história baseada na destruição do planeta Terra pelo Homem, através da guerra e pela poluição, e na posterior fuga para o espaço de apenas dois seres humanos (um homem e uma mulher), numa nave espacial, os quais regressam 10 000 mil anos depois à Terra, entretanto já transformada num planeta vazio, virgem, inabitado e verdejante à espera que o descobrissem, para que fosse então possível, construir uma nova civilização, a partir do zero, à semelhança da génese primitiva de Adão e Eva.
Todo o disco é um apelo à imaginação do ouvinte e aos cenários auditivos que só a música de indiscutível qualidade nos pode transmitir. Desde a percussão galopante vertida no tema Caos, anunciado já uma fuga da cidade em chamas, à viagem espacial pelas galáxias do Universo, passando pela descoberta de um novo planeta e ao regresso à Terra, 10000 anos depois entre Vénus e Marte revela pela primeira vez aos portugueses a capacidade de um músico poder fazer rock em Portugal com expressão universal. Para além, disso, ao mesmo tempo que outros músicos acordavam para o que José Cid e o Quarteto 1111 já tinham feito uma dezena de anos antes, José Cid aventurava-se num conceito de música inovador, acompanhando os grandes grupos de rock progressivo e sinfónico da altura, como os Génesis, Pink Floyd ou Jethro Tull, num trabalho no qual toca piano acústico, piano eléctrico,orgão,diferentes sintetizadores e, claro, o mellotron, instrumento que conduz a viagem de todo o disco, que, no fundo, o elevou nos tempos actuais como uma das referências a nível mundial do mellotron. Para além de José Cid, colaboraram na gravação do álbum o inseparável Mike Sergeant ( viola solo e viola de 12 cordas no tema “Caos”) Ramon Galarza( percussão) e o baixista Zé Nabo, que também tocou viola solo e de 12 cordas.
A bom tempo, felizmente, a editora americana de Los Angeles, a Art Sublime descobriu e reeditou o disco em 1994, numa brilhante edição de luxo, limitada de 500 cópias, réplica do vinil em tamanho original, embora no interior constasse o disco em formato CD, ao qual juntou o tema extra “ Vida” ( Sons do Quotidiano)", gravado em 1977, fruto da parceria Cid, Scarpa, Carrapa & Nabo. De imediato, 10000 mil anos depois entre Vénus e Marte, adquiriu um estatuto especial, tendo tal reedição contribuído para que o interesse súbito nesse disco atingisse uma imediata dimensão mundial. Na verdade, editoras independentes de todo o mundo têm manifestado um interesse por esse disco, reeditando-o. A divulgação e o reconhecimento de 10000 anos depois entre Venús e Marte como uma obra prima do rock progressivo e do mellotron, teve o seu auge quando anos mais tarde, a revista especializada de rock BillBoard, aquando da elaboração de uma lista dos melhores discos de sempre de rock progressivo a nível mundial, o inserisse na referida lista no número 57.º . É verdade que é apenas uma crítica, mas para orgulho do rock português, este é o único disco de Rock feito em Portugal com reconhecimento e procura no estrangeiro, nomeadamente a sua edição original em vinil, cujo preço chega a atingir os milhares de euros. Nunca fomos muito a favor de catalogação e, especialmente, da hierarquização de discos por ordem descendente de qualidade, uma vez que todas as apreciações transportam consigo um enorme lado de subjectivismo e de gosto pessoal. No entanto, não temos dúvidas em aceitar perfeitamente que 10 000 mil anos depois entre Vénus é efectivamente um dos álbuns de referência do rock mundial e que, orgulhosamente, é da autoria de um português. Não podemos deixar de salientar a curiosa confidência que o próprio José Cid nos fez, quando referiu que o disco terá vendido apenas 600 cópias no ano do seu lançamento, razão pelo qual esse álbum andou perdido no tempo e quase que condenado ao esquecimento.
Actualmente, 10 mil anos depois entre Vénus e Marte, encontra-se facilmente à venda em formato CD, em qualquer loja de discos do pais, em virtude da sua reedição pela MoviePlay em 1999, facto que tem contribuído para que, a pouco e pouco, este trabalho passe a ter o merecido destaque no panorama musical português. Não poucas vezes, durante os concertos de José Cid dos últimos anos, fãs surgem em frente ao palco com faixas ou lençóis com um simples pedido “ Zé, toca o Caos!”, que, bem vistas as coisas, acaba por ser a canção mais conhecida desse disco, e por consequência, talvez a canção mais conhecida de José Cid no mundo inteiro. Efectivamente para os admiradores do género espalhados por todo o mundo, não há dúvidas em reconhecer aquela sequência de acordes bem ritmada de Mike Sergeant, que serve de introdução ao “Caos”, a canção liricamente mais agressiva e, em termos musicais, a mais poderosa de todo o disco. Ao escolhermos “O Caos” para apresentar este disco, estamos também a entrar na actual realidade onde vivemos e para a destruição para a qual caminhamos a passos largos. As breves notícias do tempo recente e a ausência de soluções para o tempo futuro, colocam-nos diariamente perante becos, a maioria dos quais sem saída, dos quais não conseguimos escapar. A violência, a instabilidade, os atentados constantes, os massacres perpetrados em locais públicos, sejam eles de culto ou escolas, todos esses factores contribuem, infelizmente, para que "O Caos", passados 30 anos do seu lançamento, continue a ser um tema actual neste Portugal, cujo futuro próximo nos amedronta.

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Imagens reproduzidas da colecção particular do autor do blogue

sábado, 14 de março de 2009

Portugal, Portugal, Portugal

Portugal, Portugal, Portugal não se pode considerar, de forma alguma, uma canção totalmente desconhecida para os apreciadores de José Cid, contrariamente a todas as outras que até ao momento temos vindo a divulgar neste espaço. No entanto "Portugal, Portugal, Portugal", parece-nos ser, de entre todas as canções que José Cid gravou num estilo mais popular, aquela que apela de forma mais evidente à riqueza do nosso folclore. Aliás, é através das canções populares que podemos compreender com mais facilidade a versatilidade musical de José Cid. Basta pensarmos que entre 1977 e 1978, José Cid se encontrava a gravar um disco de rock progressivo, enquanto que ao mesmo tempo lançava para o mercado singles de música de raiz popular ( “ A Anita não é bonita” e “Ti Anita”), para percebermos que, com José Cid, as formas de expressão musical podem ser infinitas. Ora, como não podia deixar de ser, mais tarde ou mais cedo, teríamos que abordar este lado mais popular no qual José Cid, orgulhosamente, também se encontra inserido. Ao escolhermos “Portugal, Portugal, Portugal” para ilustrarmos esta vertente de José Cid, estamos também a prestar homenagem a um país que continuamos a considerar ser bonito, apesar da constante destruição dos nossos espaços verdes, em abono de construções faraónicas de betão, contrariamente às paisagens que José Cid evoca em "Portugal, Portugal, Portugal".
Não podemos deixar de salientar que muito antes de "Portugal, Portugal, Portugal", já a temática da portugalidade esteve bem presente na carreira discográfica de José Cid, desde logo com a emblemática “ Lenda de El Rei. D. Sebastião”, passando pela “Balada para D. Inês”, pela menos conhecida “ Nas terras do fim do mundo” e pelo tema menos explícito mas contundente, “Vale da Ilusão”, todas estas composições do tempo do Quarteto 1111.
"Portugal, Portugal, Portugal", foi originalmente editado em 1979, como primeiro tema do alinhamento do lado A do álbum “ José Cid Canta Coisas Suas” ( Orfeu FTAP 606), com arranjos de José Cid e contributos de Pedro Caldeira Cabral ( viola), Ramón Galarza, Mike Sargeant e coros de Ana Maria Almeida, Constança Almeida e Ana Sofia Cid. Ainda no mesmo ano, foi editado um single desse mais recente trabalho de José Cid, distribuído em França pela etiqueta VOGUE ( VG 108-101267), para divulgação no estrangeiro. Os temas incluídos no single foram precisamente “ Portugal, Portugal, Portugal” e “ Olinda, a Cigana”, como lado B. Dada a sua raridade, e por nos ter sido solicitado por um leitor do nosso blogue, aqui deixamos para os leitores imagens da capa do referido single e um excerto desta canção, na qual podemos escutar facilmente a (nossa) guitarra portuguesa, os ferrinhos e ainda os afinados coros das portuguesas bonitas que fazem deste Portugal um pais ainda mais belo.

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domingo, 8 de março de 2009

Oiça a opinião de José Cid

No início da década de 80, as Selecções do Reader’s Digest editaram uma caixa com 8 LP’s estereofónicos dedicada aos maiores intérpretes e compositores da música portuguesa com o nome de “ SUPER ESTRELAS DA MÚSICA PORTUGUESA”. Tal edição foi considerada, pelas próprias Selecções, como o acontecimento musical do ano. Tratou-se de um registo discográfico, exclusivo para assinantes, que reunia na mesma caixa de discos, nada mais nada menos, do que 96 canções, numa tentativa de compilação dos grandes sucessos de sempre da nossa música popular. Com excepção de um LP totalmente dedicado a Amália Rodrigues, cada um dos discos era dedicado a dois artistas, tendo cada um direito a uma face do disco só com canções por si interpretadas.
Os artistas que fizeram parte do elenco dos discos foram os seguintes: Amália Rodrigues, Gemini, Paco Bandeira, Tony de Matos, Maria Clara, Carlos do Carmo, Simone de Oliveira, Duo Ouro Negro, Alfredo Marceneiro, Francisco José, Hermano da Câmara, Paulo de Carvalho, Maria Lurdes Resende, Tonicha e, claro está, José Cid. Curiosamente, Tonicha e José Cid, partilharam respectivamente o Lado A e lado B do disco 8, eles que já tinham gravado juntos com o Quarteto 1111 em 1968. Muitos mais artistas mereceriam ser incluídos nesse álbum, pois quando se pretende elaborar uma compilação de sucessos, questões relativas a direitos editoriais muitas vezes esbarram nas intenções dos mentores desse tipo de projectos, fazendo com que um ou outro artista tenha que ser necessariamente excluído. No entanto, cremos que parte dos artistas mais populares das décadas de 60 e 70 estão efectivamente reunidos neste disco.
Se esta colecção de discos é relativamente conhecida, o mesmo já não diremos do disco que apresentamos hoje. Trata-se de um disco flexível, amostra promocional da colecção SUPER ESTRELAS DA MÚSICA PORTUGUESA”, apresentado por António Sala, no qual se pode ouvir vários excertos das canções que compunham a colecção e as opiniões de vários intérpretes representados nesses discos, entre as quais as de Amália Rodrigues, Simone de Oliveira e José Cid.
Por um questão de rigor, iremos transcrever os dizeres constantes desse pequeno disco de vinil flexível: Disco Amostra Grátis/ Este disco destina-se unicamente a fins de demonstração. A qualidade do som não é de modo algum representativa da dos discos que compõem o Álbum. INSTRUÇÕES PARA UTILIZAÇÃO: Não utilizar com dispositivos de mudança automática de discos. Para melhor reprodução coloque aqui uma moeda de 1 escudo. Venda Proibida.”
Ora, precisamente depois de termos comprado este disco (por 50 cêntimos na Feira de Antiguidades de Coimbra) num estado lastimável e depois de o ter-mos conseguido pôr a tocar com duas moedas de 20 cêntimos na sua superfície, estamos agora em condições de partilhar com os leitores a opinião de José Cid sobre esse lançamento, do qual destacamos a seguinte frase: “.... a nossa música foi finalmente tratada como merece”. Pelo que conhecemos do Artista, acreditamos que José Cid em 1980, acreditava piamente no que estava a dizer.... Ironicamente, nessa altura José Cid ainda estava longe de saber que, uma década depois, teria que posar nú para uma revista em sinal de protesto pelo facto de a música portuguesa não estar a ser tratada como merecia, por não passar nas playlists das rádios portuguesas, em detrimento de música estrangeira.
Felizmente para nós, assistimos hoje a um novo interesse pela música portuguesa em geral, patente em programas de televisão e também em (algumas) rádios, o que nos deixa manifestamente satisfeitos, embora tenhamos consciência de que muito mais haverá a fazer e que nenhuma rádio portuguesa cumpre a legislação em vigor relativa às quotas de música portuguesa. Mas isso são outras questões... fiquem hoje com um excerto desse raro momento fonográfico, registado num disco flexível !

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domingo, 1 de março de 2009

Nossa Senhora do Tejo

Nasci na margem de um rio/ que me banhou em menino/ que me levou para longe/ quando traçou o meu destino. São estes os primeiros versos que José Cid escreveu em 2002 ao compor a canção Nossa Senhora do Tejo e que bem podiam ser um reflexo do percurso da sua vida.
José Cid nasceu na Chamusca, uma vila junto à margem Sul do Tejo, tendo sido levado pelos seus pais, com apenas 11 anos, para viver no centro do país, em Mogofores, no concelho de Anadia, terra onde se radicou até aos dias que hoje correm. A proximidade de Mogofores com a cidade de Coimbra fê-lo desde muito cedo compreender e seguir o seu destino, que parecia traçado quando saiu da Chamusca: a música. Para Coimbra fugia para tocar, tendo sido lá que formou os primeiros grupos de música onde participou ( os Babies e a Orquestra Ligeira do Orfeon Académico) e ainda hoje, quando é convidado para concertos com um registo mais intimista por esse país fora, fá-lo quase sempre acompanhado pelos sons das guitarras de Coimbra.
O tema que escolhemos para hoje é também presença habitual no alinhamento normal de um concerto mais intimista de José Cid. Falamos de Nossa Senhora do Tejo, tema que José Cid compôs para a telenovela portuguesa “ Filha do Mar” num formato mais acústico e que o Artista incluiu também no seu álbum de 2002 “De Surpresa” (Ovação 5041 UPCD), dedicando-o a todos os que nasceram nas margens do Tejo, em particular aos chamusquenses.
No entanto, quem pense que a versão de "Nossa Senhora do Tejo" incluída na banda sonora original da novela “ Filha do Mar” é igual à versão incluída no disco “De Surpresa” está redondamente enganado. Bem pelo contrário; terá precisamente uma surpresa! Para continuarmos a mostrar o lado mais camaleónico de José Cid, nada melhor do que partilharmos com os nossos leitores a versão house de Nossa Senhora do Tejo, ou melhor, a versão "house acústico", conforme acertada descrição no booklet que acompanha o CD.
Confessamos que a dance music, tecno, trance ou house, não são propriamente os nossos estilos de música preferidos, nem provavelmente os do próprio José Cid. No entanto, não podemos deixar de mostrar mais uma vez a versatilidade das canções de José Cid. Em relação ao tema de hoje, muito mais do que um mero remix, estamos perante uma canção com um destinatário determinado, bem fácil de descortinar pelo som das violas que se cruzam facilmente com as águas do Tejo e com a vila da Chamusca. Fica então aqui o registo de que, pelo menos por uma vez, também José Cid se aventurou pelos campos da música electrónica dançável.


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sábado, 21 de fevereiro de 2009

Big Brother Joe

Caros leitores, hoje vamos deixar de lado a objectividade que pretendemos manter neste blogue, fazendo, excepcionalmente, uma incursão pelo universo da fantasia para viajarmos até um bar irlandês na companhia dos nossos companheiros de viagem, tendo como meio de transporte a verde paisagem sonora que o tema Big Brother Joe nos oferece. Para isso basta recuarmos até 1980, ano em que José Cid lança para o mercado internacional o seu primeiro disco totalmente gravado em inglês, “My Music” (Orfeu FPAT 6009) meses após a sua participação no Festival da Eurovisão da Canção, na qual conquistou o 7.º lugar, entre 19 participantes.
Na nossa visão muito pessoal sobre o que é uma canção diferente das outras, há uma certeza que há muitos anos vimos tendo: muito mais do que um som que nasce do nada, uma boa composição musical deve trazer sempre consigo uma espécie de cenário auditivo, que nos permita cruzar os instrumentos com a letra da canção e, simultaneamente, entrelaçá-los com a nossa própria imaginação. Assim, se não precisarmos de fazer um grande esforço imaginativo para encontrar cenários mentais através da música que ouvimos, então só poderemos estar perante uma boa canção,que nos transmita mais do que aquilo que estamos a escutar e que nos permita exercitar mais do que um dos nossos sentidos.
O tema que escolhemos para hoje, na nossa opinião, enquadra-se perfeitamente nos cenários auditivos que estamos a traçar. Por mais que tentemos, ao ouvirmos esta canção, só nos conseguimos imaginar na Irlanda, mais o nosso saudoso amigo Big Brother Joe, a beber uma boa caneca de cerveja ou um bom whiskey num pub tradicional, numa roda-viva de extrema animação, onde algumas mulheres, contagiadas com a nossa animação, nos lançam sorrisos do outro lado do bar, enquanto amigos marinheiros se vão juntando à nossa mesa.
Quem estiver mais atento a este tema, ouvirá por certo as pedras de gelo a escorregar para dentro dos copos de whiskey , que se vão enchendo à medida que a animação avança à volta da nossa mesa, contagiando já todo o bar, onde entretanto já todas as restantes pessoas cantam em coro as nossas canções, noite dentro até de manhã, acompanhados ao acordeão por José Cid, que num registo vocal quase irreconhecível nos vai conduzindo para a nostalgia das grandes amizades que perduram no tempo.
Big Brother Joe, um tema tão especial por ser o nosso preferido deste disco, foi assim, naturalmente, o eleito como tema de apresentação de mais um (!) dos álbuns de José Cid cuja edição em CD ainda não existe. Confessamos que olhamos sempre com desconfiança quando um português se aventura a cantar em inglês, pois a nossa grande paixão pela música portuguesa, leva-nos, por vezes, a tecer comentários mais depreciativos sobre portugueses que cantam em inglês. Se por um lado sabemos que não é fácil compor em português, por outro lado também temos noção de que não pode ser qualquer um a aventurar-se a cantar em inglês. Não pretendemos idolatrar José Cid neste blogue, pois nós próprios conhecemos uma ou outra canção de José Cid cantada em inglês que não apreciamos tanto. No entanto, o disco My Music é todo ele uma excepção à regra e logo à primeira audição tivemos que dar o braço a torcer: estamos na presença de um músico que interpreta como ninguém aquilo que melhor soube fazer até aos anos 80: música rock, de influência anglo-saxónica, toda ela tão presente neste disco.
Talvez este tema não seja o ideal para mostrar ao ouvinte o perfeito à vontade de José Cid a cantar com feeling natural os temas pop rock que constituem este albúm, na lingua materna dos seus ídolos de juventude. Parece-nos, no entanto, o mais diferente e camaleónico de todos. Se José Cid não tivesse nascido com inclinação natural para a música rock, jamais conseguiria gravar um disco em inglês tão bem gravado, disso não temos quaisquer dúvidas.
Há, no entanto, uma outra personagem que temos que referir na mensagem de hoje: Mike Sergeant, guitarrista, cantor, ex-membro dos Greenwindows ,companheiro de José Cid nas lides musicais, que assinou os arranjos de todos os temas deste disco, contribuindo ainda com o original da sua autoria “ Sycamore Square”. (Aliás, fica já a promessa que mais para a frente, dedicaremos uma mensagem desde blogue toda ele dedicada a Mike Sergeant). Sem ele este álbum de José Cid, não seria o mesmo.
Infelizmente, estamos perante um disco pouco conhecido e do qual também não temos muita informação. Sabemos, no entanto, que a história deste disco não teria sido a mesma se José Cid tivesse ganho o Festival da Eurovisão da Canção desse ano, pois foi gravado numa tentativa de internacionalização de José Cid, toda ela pensada no sucesso que dele se esperava na final do Festival da Canção, com o tema “
Um Grande, Grande Amor.”
Apesar de tudo, José Cid conseguiu a extraordinária faceta, só ao alcance de meia dúzia de cantores portugueses, de ter tido sucesso no estrangeiro, cantando em português. Razão tinha José Cid ao dizer que “se Elton John tivesse nascido na Chamusca não seria tão conhecido como ele”. Este disco comprova-o, pois o pior deste disco consegue ser infinitamente superior ao (supostamente) melhor da música estrangeira que invade as playlists das rádios portuguesas.
O leitor que nos perdoe os nossos devaneios mas o whiskey que esta música nos oferece a isso nos conduziu.

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domingo, 15 de fevereiro de 2009

Canta-me um blues

Conforme temos tentado evidenciar nas nossas mensagens, José Cid tem passado por quase todos os estilos musicais, não porque a isso se propôs, mas sim porque foi o próprio desenvolvimento das várias formas de expressão musical ao longo da história da música popular que acabou por oferecer aos artistas um enorme leque de possibilidades, a fim de poderem explorar o talento que com eles nasceu. José Cid, para não fugir à sina dos afortunados,ora através de composições de estilo muito próprio, ora através de composições que se encaixavam perfeitamente num determinado cliché musical, soube conjugar da melhor maneira o seu talento inato com as influências que também recebeu de outros artistas ou correntes musicais. No entanto, há um estilo musical que podemos considerar como a raiz de toda a expressão da música popular universalizada: falamos obviamente do bom velho Blues, que tantas vezes nos acompanha ao longo da vida, ou mesmo durante o próprio dia. Contudo, depois de percorrermos a discografia completa de José Cid e do Quarteto 1111, não podemos dizer que seja fácil encontrar muitos temas de blues. Bem pelo contrário; infelizmente para nós, que tanto gostamos de Blues, José Cid não tem explorado muito essa vertente musical, pelo menos na sua vertente mais pura.
Da nossa parte, temos a esperança que um dia José Cid decida gravar um disco de Blues, por duas razões: primeiro, e pelo que temos ouvido dos seus trabalhos mais recentes (nomeadamente do disco “Ao vivo no Campo Pequeno”), José Cid apresenta-se hoje como o único músico português com autoridade e com capacidade vocal para gravar um bom disco de Blues em Portugal. A sua excelente voz aos 67 anos e os rasgos de improviso que ela nos oferece obrigam-nos a esperar ansiosamente por esse dia. E em segundo lugar, porque quem grava um disco de Jazz ao primeiro take, como José Cid gravou (Cais do Sodré, em 1998), também rapidamente grava um disco de Blues em 2 takes ! Aqui fica então a nossa sugestão, caso José Cid nos esteja a ler...
Atenção! Não pense que iríamos deixar a mensagem de hoje sem qualquer correspondência com a obra de José Cid. É que, apesar de pouco explorado, o Artista também nos cantou um blues, há precisamente 20 anos, no seu disco “ José Cid" ( Polygram 8385513-1) com uma canção intitulada “ Canta-me um blues”, a qual reflecte uma sincera homenagem do artista a esse género musical ( "Lá no fundo do meu túnel posso ver a luz do dia e é essa música azul que à saida me conduz, se me queres ver na maior, canta-me um blues)". É esse momento que pretendemos partilhar hoje com os nossos leitores.
Em relação ao disco do qual faz parte a canção Canta-me um blues, trata-se de mais um disco cuja edição em formato CD continua a pertencer à classe das raridades. Isto porque na contracapa do disco de vinil encontramos também uma referência “ Polygram CD -8385513-2, que nos remete para o CD que esgotou imediatamente em poucos meses. Este discurso para nós já é recorrente, infelizmente, pois são vários os discos de José Cid que ainda não têm versão em CD ou que, pelo menos, se encontram esgotados. Se pensarmos que dois dos temas mais populares de José Cid estão incluídos nesse disco (Cai neve em Nova York e Coração de Papelão), o caso assume contornos mais graves. Resumindo: é mais um bom disco de José Cid caído no esquecimento. Felizmente, conseguimos encontrar, perdido algures entre Venus e Marte, um vinil desse disco com a etiqueta na contracapa “Amostra Promocional - VENDA PROIBIDA”. Como é evidente, tivemos que comprá-lo!
Para hoje fica então um cheirinho deste blues que José Cid nos ofereceu em 1989.

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domingo, 8 de fevereiro de 2009

FINALMENTE UM TEATRO ! - JOSE CID EM ANADIA

Caros leitores, esta semana vamos fugir um pouco à regra e ao âmbito do nosso blog (que até ao momento se tem centrado na análise de alguns dos discos menos conhecidos de José Cid) para relatarmos o que se passou na noite de 6 de Fevereiro de 2009, em Anadia, concelho onde reside o Artista (na aldeia de Mogofores).
Como filhos da terra que também somos, não podemos deixar de realçar que não é todos os dias que podemos ter na nossa terra, no mesmo palco, a escassos metros de nós, a presença do Presidente da Republica (Cavaco Silva) e aquele que consideramos ser (sem rodeios) o pai do rock português, José Cid. Mas aconteceu! E porquê? É que Anadia vai ter finalmente um novo cine-teatro, passados tantos anos de abandono e degradação do velhinho Cine- Teatro S. Jorge. Até nós que somos uns jovens, ainda nos lembramos do velho teatro, dos camarotes, e do cinema em Anadia. Contudo, não pensem que pretendemos com a mensagem de hoje prestar homenagem aos actuais autarcas do concelho de Anadia pela obra que no dia 6 de Fevereiro de 2009 apresentaram aos anadienses, com honras de Chefe de Estado. Bem pelo contrário; entendemos que não fizeram nada mais do que a sua obrigação, pois há quase duas décadas que os anadienses reclamavam pelo facto de os autarcas nada terem feito para evitar que o antigo
cine teatro S. Jorge entrasse em ruínas. Se pensarmos bem: É necessário cair um telhado de um edifício com mais de 100 anos para se deitar mãos à obra? Com a morte do Cine-Teatro S. Jorge, morre também parte da memória colectiva de Anadia. É triste,mais um espaço histórico da Bairrada que está em ruinas e que desaparecerá ! ( Já para não falar da destruição do Mercado Municipal... e do novo projecto de parque infantil em frente a um cemitério ! )
No entanto, e para não parecermos ingratos, desejamos sinceramente que o dia 6 de Fevereiro simbolize também o regresso da cultura à nossa terra e que o futuro nos faça esquecer rapidamente que durante quase vinte anos estivemos à mercê do cinema e das peças de teatro que apenas os olhos dos outros conseguiam ver noutras cidades. Que esse dia seja também uma esperança para o futuro.
Apraz-nos ainda realçar o facto de o principal artista convidado para a inauguração do novo espaço ter sido precisamente José Cid. Na verdade, só teria sentido ser José Cid a inaugurar aquele espaço, não só pela sua importância e mediatismo, mas também por ser o maior artista de Anadia, para muitos um orgulho da terra. Não temos dúvida em afirmar que bem esteve a autarquia em convidar, em jeito de reconhecimento, José Cid para inaugurar o Cine-Teatro de Anadia ( ele que tantas vezes foi esquecido pelas gentes da nossa terra.)
Todavia, o espectáculo que ontem assistimos, juntamente com o Presidente da Republica, não foi apenas mais um espectáculo de José Cid; foi antes o reencontro com o público de um projecto que já existe há vários anos mas que nem todos os dias temos o privilégio de os escutar: Falamos dos “Sons do Centro”, um projecto "centrado" nas guitarras de Coimbra, que nos transporta até ao disco “ Oda a Garcia Lorca”, bem como ao imaginário da velha música de Coimbra, reinventada há já vários anos por José Cid através de discos pouco conhecidos da década de 90. Como o leitor deve calcular, para nós, foi um privilégio escutar José Cid neste registo e em excelente forma.
Como prémio da actuação para os anadienses, José Cid abriu o concerto com um tema inédito, escrito há menos de um mês entitulado “ Tu tocas piano como quem faz amor”. Confessamos que mal o Artista enunciou o nome da canção, que não deixámos de esboçar um pequeno sorriso e pensar “ O que é que irá sair dali?” Bom, simplesmente uma bela balada ao piano, de arrepiar por completo. Na nossa opinião, foi o momento da noite e logo a abrir o concerto. Para os mais interessados deixamos aqui a setlist do concerto:

1.Tu tocas piano como quem faz amor ( inédito) – José Cid, piano
2. Terra Mãe ( José Cid, com Sons do Centro - Carlos de Jesus e Paulo Largueza )
3.Coimbra ( Dueto com Zé Perdigão )
4.Sou galego até ao Mondego ( poema recitado por Joana Oliveira , acompanhado por Amadeus Magalhães, na gaita de foles)
5. Sou galego até ao Mondego – José Cid e “Sons do Centro”
6.Povo que lavas no rio – José Cid e “Sons do Centro”
7.Milho Verde ( Dueto com Zé Perdigão)
8.Fui à beira do Mar ( homenagem a José Afonso, interpretado por Nilde Grave)
9.A Lenda da Princesa Mal Amada ( poema recitado por Joana Oliveira, acompanhada por Amadeu Magalhães e José Cid)
10.A Lenda da Princesa Mal Amada ( José Cid e Sons do Centro)
11.Feira de S. Sebastião ( Zé Perdigão)
12.O Santo e a Senha ( José Cid e Sons do Centro – Tema inédito, poema de Miguel Torga)
13. Interrupção de Jorge Gabriel a alertar José Cid que tinha que terminar o concerto mais cedo devido ao espectáculo pirotécnico, com resposta imediata do Artista “ Tanto me faz ! “
14.No dia em que rei fez anos ( José Cid)

Da nossa parte fica então o relato abreviado dessa noite, na qual podemos confirmar que José Cid está para durar, em excelente forma, no pleno domínio das suas capacidades vocais e com a mesma personalidade de sempre: directo e frontal. A nós que lá estivemos por causa do seu concerto e não pelo Presidente da Republica, o “ Tanto me faz!” que José Cid nos ofereceu nessa noite, foi o agradecimento para quem ali esteve para o ouvir cantar. Outra coisa, não podia deixar de ser. Não há foguetes que parem a vontade de cantar de José Cid.
Nessa mesma noite, também privámos com o Artista pela primeira vez, no seu camarim, em amena cavaqueira durante mais de 20 minutos, enquanto que do outro lado, os outros anadienses se entretinham com o fogo de artifício. Muito mais haveria para relatar das interessantes histórias que o artista nos contou e dos seus projectos para o futuro. No entanto, o ambiente reservado de um camarim obriga-nos a guardar as memórias para nós próprios, deixando para os leitores apenas este registo: José Cid está para durar
! Preparem-se para 2009 !


José Cid em Anadia, 06.02.2009

domingo, 1 de fevereiro de 2009

O rapaz da camisola verde

É impossível esgotar todos os recursos e pensarmos que nada de novo haverá mais para apresentar sobre José Cid. Quem porventura pense assim está concerteza muito enganado. A diversidade artística e musical de José Cid é tão ampla que difícil para nós é decidir o que partilhar com o leitor, tão grande tem sido a panóplia de estilos e sonoridades musicais que José Cid tem escolhido para apresentar a sua arte. Depois de passarmos pelo Jazz e pelo disco sound, para hoje escolhemos um fado, ou melhor, um fado de sempre: “O rapaz da camisola verde” retirado do álbum com o mesmo nome (Fado de Sempre – Casablanca/Polygram – 834 149-1).
Como aflorámos já numa mensagem anterior, a relação de José Cid com o fado não é totalmente inexplorada, bem pelo contrário; para além de um ou outro fado constantes de lados B de singles lançados nos anos 80, em José Cid, “ esteve sempre presente essa alma de fadista amador que o leva a cantar frequentemente o Fado em tertúlias ou casas particulares. Este é um projecto adiado de 30 anos e simultaneamente uma homenagem aos fadistas que mais admiro e a alguns dos seus fados mais bonitos, inspirados pelo Fado de Sempre que cantaram””.(conforme escreve na contracapa do disco). Diga-se ainda, por não deixar de ser verdade, que José Cid, apesar de eternamente conhecido como um dos fundadores do rock português, nunca deixou de cantar fado, e fê-lo desde o início da sua carreira até aos nossos dias. No entanto, o único trabalho discográfico de José Cid inteiramente dedicado ao fado, apenas surgiu mais de duas décadas depois do seu primeiro registo discográfico com o Quarteto 1111, razão pela qual a faceta de José Cid cantor fadista não seja muito conhecida pelo público em geral
Com excepção da composição “ Eu canto a solidão que me tortura” de autoria de Maria Manuel Cid (prima de José Cid), todos os fados interpretados por José Cid neste disco pertencem aos fadistas que mais admira e que marcaram a história do Fado( de Lisboa), de cujo alinhamento se destacam Canoas do Tejo, Por morrer uma andorinha, ou o célebre fado do Embuçado, popularizado por João Ferreira Rosa. No entanto, e sem qualquer critério em especial, (pois não somos totalmente entendidos neste estilo musical) escolhemos para hoje um fado menos conhecido do público em geral: "O rapaz da camisola verde", com letra de Pedro Homem de Melo e música de Hermano da Câmara.
Infelizmente, este é mais um dos discos de José Cid que ainda não viu a luz do dia na versão CD, o que não se compreende.De facto, Fado de Sempre venceu apenas na primeira semana cerca de 40.000 cópias, num sinal evidente de que José Cid também sabe cantar fado e que, mesmo em termos comerciais, nenhuma razão existiria para temer pela reedição deste disco em formato CD com o pretexto de que não seria vendável, bem pelo contrário. Pese embora, a abordagem de José Cid em relação a essa questão, o que é certo é que até ao momento a editora tem preferido lançar novos artistas em deterimento da reedição desde disco, o que de certa forma se compreende . Contudo, essa estratégia de lançamento de novos talentos não poderá invalidar simultaneamente a recuperação e preservação de discos que, ao serem reeditados num formato mais práctico como é o do CD, poderão ser apreciados por muitos ouvintes como se de um novo lançamento se tratasse. Estamos em crêr que Fado de Sempre seria um desses exemplos. Da nossa parte, só podemos dizer que quem conhece outros fados interpretados pelo Artista como “ Fado da Capela Abandonada” ou “ Fado da Nossa Senhora”( que se encontram facilmente nos cds “Antologia #1 “ e Antologia # 2) e porventura pense que a sua alma de fadista se resume a esses temas está muito enganado. Aliás, o Artista que nos perdoe o atrevimento em opinar sobre uma matéria da qual nem aprendizes ainda somos: quem quiser ouvir José Cid de forma verdadeiramente sublime a cantar o fado, o verdadeiro fado de sempre, esqueça os lados B dos singles e procure (e oiça!) este disco. Só poderá concluir a sua audição com um sincero: “ Ah! Fadista!”. Aqui fica então um pequeno excerto do tema de hoje, retirado directamente do nosso disco de vinil, que tanto prezamos e guardamos com todo o cuidado… isto porque o vinil, se for bem conservado, é como o fado: vive para sempre.

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sábado, 24 de janeiro de 2009

Fã do Rui

Uma das frases mais conhecidas de José Cid (para além de “Faz-me favas com chouriço”) é, seguramente, aquela que os estudantes do Porto tiveram ocasião de ouvir em 2004 aquando do concerto de José Cid na Queima das Fitas dessa cidade: “ Se o Rui Veloso é o pai do rock português, então nesse caso eu sou a mãe!
Quem ler esta frase, sem conhecer os artistas em questão e sem qualquer outro contexto que não o de festa estudantil, ficará imediatamente com a ideia que José Cid queria atacar o artista Rui Veloso e que a relação entre os dois é de extrema conflituosidade, como se lutassem os dois pelo ceptro de Pai do Rock Português. Não vamos entrar pela questão do pai do rock português, pois não é isso que mais nos interessa; o que pretendemos com a mensagem de hoje é partilhar convosco a homenagem que o próprio José Cid fez ao artista Rui Veloso em 1991 no seu disco duplo “ De par em par” (LP 848974-1 Casablanca/ CD LP 848974-1 Casablanca), através do tema “ Fã do Rui”. Um tema muito simples, de dois minutos, escrito numa época em que Rui Veloso conquistou o mercado discográfico com o duplo álbum “ Mingos e Samurais”, popularizado por temas como “ Baile da Paróquia” e “Não há estrelas no céu”, entre outros. Em sentido inverso, José Cid começava, nessa altura, a sua trajectória descendente em termos de sucesso discográfico, como o próprio ironiza na canção que hoje partilhamos com os leitores.
Temos, assim, a ironia como nota dominante nesta canção, não estivesse José Cid a contar-nos uma história muito simples de um homem, que num café de Cedofeita, se enamora por Lola, uma bela mulher que, no fim de contas, era um travesti!!! (Felizmente, o recepcionista da pensão onde Lola vivia alertou o desconhecido protagonista da história para esse facto, evitando surpresas e incómodos maiores...) Desesperado, o protagonista fugiu, tendo decidido tomar mais um copo, mas desta vez numa tasca da Ribeira, onde se deparou, segundos depois, a ver um programa na televisão, no qual um moço lá do Porto tocava ao piano o tema “ A Paixão” do Rivoli. Ora, esse moço de imediato lhe “ fez lembrar outro artista, outrora tão bem famoso, que também canta ao piano e que é fã do Rui Veloso”. Para bom entendedor meia palavra basta: José Cid ironiza sobre si próprio, sobre o sucesso que outrora teve, ao mesmo tempo que homenageia o artista mais famoso da altura, declarando-se seu fã. Um ouvinte mais atento e mais conhecedor da obra de Rui Veloso, encontra facilmente neste tema de José Cid reminiscências da sonoridade de “Mingos e samurais” e, claro, do tema Chico Fininho, do disco “Ar de Rock”.
“De par em Par” ( ou Jeans), pode não ter sido o disco mais conseguido de José Cid, não tendo dele sequer resultado grande sucesso ou single digno de registo. Mesmo assim pretendemos nesta pequena mensagem, por um lado, evitar o seu esquecimento e por outro lado, relembrar ao leitor que dos trinta e tal discos de José Cid lançados para o mercado desde que José Cid começou a cantar, o pior registo que alcançou foi a prata. Tudo o resto foi ouro, platina e duplas platinas. Logo...este disco só pode estar entre uma dessas categorias atrás enunciadas. Voltaremos brevemente.

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domingo, 18 de janeiro de 2009

O Gaiteiro - Agora em galego

Os mais atentos à discografia de José Cid terão certamente a noção de que os anos 90 significaram para o Artista verdadeiros anos de ausência das luzes da ribalta. No entanto, esta afirmação não significa necessariamente que José Cid durante esses anos se tenha retirado por completo das lides musicais, bem pelo contrário: José Cid nasceu para a música, e por essa razão não parou de gravar durante os anos noventa; desde o duplo albúm “De Par em Par” ( também conhecido por “Jeans”) e de “ Camões, as Descobertas e Nós” e “ Cais do Sodré”, passando ainda pelos discos “Vendedor de Sonhos”, Nunca mais é sexta-feira” , “Pelos Direitos do Homem” e “Entre Margens”, José Cid assinou nesses anos alguns dos seus melhores trabalhos discográficos, muitos deles desconhecidos pelo público em geral, devido à estranha dificuldade em os encontrar disponíveis nas editoras para comercialização.
Há, contudo, um outro disco de José Cid, da década de noventa, que nos merece especial atenção e que é objecto de análise na mensagem de hoje. Trata-se do surpreendente “Oda a Federico García Lorca” (EPF -004 CD), gravado em 1998, por ocasião do centenário do nascimento do poeta espanhol Garcia Lorca. Neste registo sonoro, José Cid presta homenagem, não só a Lorca, mas também a Armando Martinez e à poetisa Rosália de Castro, musicando dez poemas de forma magistral, cantando não em português, mas sim em galego.
A ligação de José Cid a Espanha é inultrapassável, não fosse ele de ascendência espanhola e em particular de Ciudad Rodrigo, de onde o seu bisavô emigrou para Portugal nos finais do século XIX. No entanto, há ainda a registar neste disco um outro aspecto que, à primeira vista, poderá chocar o pensamento dos mais puristas: o som dos instrumentos étnicos ibéricos e o seu cruzamento com as guitarras de Coimbra, às quais José Cid presta também homenagem.
À semelhança do disco “Cais do Sodré”, neste trabalho musical José Cid, oferece-nos mais uma vez, um dos seus melhores registos vocais, com interpretações consistentes que dão a este disco una sonoridade muito especial. Em relação, ao tema que seleccionamos para hoje, depois de alguma hesitação, decidimos partilhar com os leitores a canção “Gaiteiro”, com letra de Rosália Castro e música de José Cid,um tema que, curiosamente, é uma versão de “Soldados Desconhecidos” de 1994, do álbum Vendedor de Sonhos. No entanto, neste registo, a temática da canção é totalmente diferente da canção de 1994, desde logo, por ser um tema em que o Artista homenageia os músicos gaiteiros, personagens comuns do universo ibérico e principalmente do universo português e galego. A identidade entre a Galiza e Portugal está aqui bem presente no tema Gaiteiro.Temos que destacar, pois é importante dizê-lo, o facto de José Cid cantar em galego, num interessante sussurro, num registo muito intimista, como se nos tivesse a contar uma história ao ouvido numa qualquer aldeia em Trás-os-Montes perdida no meio das pedras.
Para terminar, aproveitamos para expressar o nosso desejo de ver este disco à venda nas lojas de discos pois trata-se já de uma raridade, sem distribuição em Portugal, por ter sido distribuído e editado em Espanha por uma editora espanhola. Mesmo assim, não podemos deixar de agradecer aos nossos vizinhos, por se terem lembrado do nosso amigo Zé e nos terem oferecido a possibilidade de ouvir esta obra prima do Cid.
Voltaremos a este disco numa próxima oportunidade.



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sábado, 10 de janeiro de 2009

José Cid, Camões, as Descobertas e Nós...

Regressamos hoje com uma “Profecia” enunciada há mais de 500 anos : “ Na memória do nosso povo fica a Ilha dos amantes”. Façamos primeiro uma viagem por esses mares nunca dantes navegados e embarquemos nas naus de Dinis Dias, Diogo Cão, Pêro da Covilhã, João de Santarém e Pedro Escobar e redescubramos essas terras de África outrora virgens...
Viajemos também na companhia de José Cid & Amigos para além do Cabo das Tormentas e, através deles, descubramos de novo que existem outros povos, outras raças e outros usos, neste mundo imenso, tão vasto, onde a força de uns se confunde tantas vezes com a opressão de outros tantos. Por isso, invoquemos o nosso passado antes de escutarmos este tema que hoje partilhamos consigo... Lembremo-nos ainda dos sonhos do nosso Infante, e da orgulhosa história da nossa expansão. Lembremo-nos de tudo isso mas sem esquecer os gentios povos de Cabo Verde e Guiné, de Malaca, Timor, Goa, Damão, Angola, Moçambique e outros tantos, onde os nossos valentes marinheiros, exaustos, chegavam para colocarem os seus padrões. Não esqueçamos também que tão negra era a pele desses povos e que tão lindo era o seu cantar antes de lhes impormos a nossa lei e de lhes ditarmos a nossa fé durante mais de quinhentos anos.
Não esqueçamos também Luís de Camões e os Lusíadas, obra magistral da literatura mundial, da qual José Cid se socorre para ilustrar as imagens sonoras do seu disco de 1992 “ Camões, as Descobertas e Nós” ( LP - Polygram 512 638 ), a nosso ver um dos melhores discos de sempre de José Cid, infelizmente e incompreensivelmente tão pouco divulgado.
Caro leitor, não pense que estamos a exagerar... Por um lado, no nosso panorama musical são ainda poucas as obras de referência dedicadas às epopeias dos portugueses e, em particular, aos Descobrimentos. Se retirarmos da nossa memória discos incontornáveis como “Por este rio acima” e “ Crónicas da terra ardente”, ambos de Fausto Bordalo Dias, ou ainda o “Auto da Pimenta” de Rui Veloso, resta-nos escassos registos sonoros alusivos aos nossos Descobrimentos. Se pensarmos que não existe ainda em Portugal uma sinfonia ou um disco integralmente dedicado aos Lusíadas de Luís de Camões, a situação atinge contornos mais graves.
Pois bem, o disco que hoje apresentamos aos nossos leitores deveria ser um disco de referência das nossas discotecas. Primeiro, porque José Cid, reúne (em sua casa!) num mesmo trabalho vozes como as de Carlos do Carmo, Paulo Bragança, Jorge Palma, António Pinto Basto, Rita Guerra, João Paulo e A Praia Lusitana. Como se não bastasse, no mesmo disco encontramos músicos instrumentistas como Pedro Caldeira Cabral, José Luís Nobre Costa, Tó da Braguesa e o próprio José Cid nos coros, cítara indiana (!) e, claro, sintetizadores. Em segundo lugar, porque qualquer fã incondicional de Jorge Palma gostaria de ouvi-lo a cantar Luís de Camões e o mesmo podemos dizer dos seguidores de Carlos do Carmo, António Pinto Basto, Paulo Bragança ou Rita Guerra. Sem dúvida, grandes amigos que José Cid tem! A terceira (e principal razão) que nos leva a propor imediatamente publicidade editorial a este disco é a sua indiscutível qualidade. Acredite, leitor, que quem ouve este disco viaja sem dúvida no tempo, numa mistura instrumental sublime, onde as guitarras portuguesas e os sons produzidos por José Cid se cruzam criando um verdadeiro ambiente de passeio marítimo sem sequer sair no sofá.
Confessamos que foi muito difícil escolher o tema deste disco que melhor o ilustrasse. Podíamos ter optado pelo Prólogo, no qual José Cid, presta homenagem ao Infante D. Henrique, ou pelo tão conseguido “Armas e barões assinalados”, cantado por António Pinto Basto.Como já se fazia noite, optamos, por fim, por seleccionar o tema “Profecia”, com letra e música de José Cid. Para além de ser um tema muito original, mais original ainda é, sem dúvida, a pessoa que José Cid escolheu para interpretar essa canção: Nada mais do que Carlos do Carmo, a Voz do Fado, num registo vocal surpreendente, onde as sonoridades africanas predominam, não fosse a letra da música toda ela dedicada a África.
Somos sinceros, podíamos bem ter optado por um tema de José Cid a cantar, pois neste disco José Cid deixa a seu cargo duas canções. No entanto, sejamos realistas: Que melhor voz encontraríamos no panorama musical português para nos declamar esta letra de José Cid ? Acreditamos que nenhuma outra :Carlos do Carmo, é Carlos do Carmo. Ponto Final.
Não podemos deixar de transcrever a letra desta profecia que por si só já nos deixa muito que pensar:
Estes povos são gentios/ de Cabo Verde e Guiné/ é tão lindo o seu cantar/ é tão negra a sua pele/ Vou impor-lhes minha lei e ditar-lhes a minha fé/ Daqui por quinhentos anos vamos lá ver como é/ Estas praias onde chego/ são de Angola e Moçambique/ não sei se as abandono ou não sei se por cá me fique/ Daqui por quinhentos anos nada será como dantes/ na memoria do meu povo fica a ilha dos Amantes. Na memória do meu povo fica a ilha dos Amores/ daqui por quinhentos anos já não há Adamastor/ De Malaca até Timor/ e de Goa até Damão/ só a terra me dá vida/ esta nau é um caixão.
É evidente que a letra da canção fala por si e que já nos faz pensar em muita coisa. Não temos dúvidas que a profecia se cumpriu, pois do “vasto império” só nos resta mesmo a Ilha dos Amores. Mas não podemos deixar de nos despedirmos sem uma última reflexão: um português fadista a cantar música africana não será também o culminar de uma profecia?

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quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Nihelile ( Agora em crioulo!)

Ano novo, nova mensagem para os nossos leitores. O que nos reservará José Cid para 2009? Nunca saberemos… Para já, somos nós que vos iremos surpreender. Temos a consciência absoluta de que a primeira mensagem de 2009 será a mais original de sempre, não fosse ela sobre uma canção que nos deixou completamente estupefactos logo à primeira audição.
Caros leitores, vamos ser muito frontais desta vez, sem grandes textos e perfumes no ar: Preparem-se para ouvir o inimaginável. Respirem bem fundo e preparem-se para ouvir José Cid a cantar em crioulo. Sim, crioulo! De Moçambique, para sermos mais exactos.
Vamos recuar então novamente a 1971, ao mítico (e quase desaparecido) álbum “ Palha” ( COLUMBIA 8E 062-40.118 – 1971 ) já por nós comentado neste blogue- Mais uma vez perguntamos, para quando a edição em CD ?)
Infelizmente, ainda não conseguimos chegar à fala com o Artista, para que o próprio nos explique um pouco sobre a razão de ser desta canção e quais os motivos que o levaram a fazer uma versão do tema "Nihelile", do moçambicano Fany Pfumo. Por essa razão, quase que nos limitamos a colocar à disposição do leitor/ouvinte este tema sem grandes considerações laterais sobre o mesmo.
O mesmo diremos relativamente ao já falecido Fany Pfumo, do qual não existe muita informação. No entanto, podemos adiantar ao leitor que Fany Pfumo é considerado por muitos o verdadeiro rei da marrabeta (música urbana de Moçambique de estilo popular), tendo feito sucesso, após a independência de Moçambique, em terras da Africa do Sul.
Sinceramente, não fazemos a mínima ideia sobre o que José Cid canta neste tema, nem o significado das palavras que canta (repita-se, mais um vez, em crioulo). A única coisa que sabemos é que o Artista, está bem disposto, e quase de certeza( apostamos desde já consigo) que está a falar de uma mulher…
Só mais uma coisa, caro leitor: O dia das mentiras é daqui a quatro meses, por isso, caso pense que a mensagem deste dia é brincadeira, informamos desde já que está enganado: É mesmo José Cid que está a cantar!

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sábado, 20 de dezembro de 2008

Barbara

Boa noite, leitores. Felizmente temos cumprido o objectivo a que nos propusemos quando iniciámos este blog, que é o de manter a regularidade com que o temos vindo a actualizar, quase semana a semana, sempre com excertos de canções que nos mostrem o lado mais camaleónico de José Cid, sem nunca descuidar a opção por temas menos conhecidos do público em geral.
Para esta semana escolhemos, pela primeira vez, um tema de José Cid cantado em inglês. Pese embora José Cid, já desde os anos 60 ( com o Quarteto 1111) e 70 ( com os Greenwindows), grave temas em inglês e tenha, inclusive, um maravilhoso disco a solo gravado totalmente em inglês na década de 80 (“ My Music” - Orfeu FPAT 6009) – para quando a edição em CD ?- decidimos escolher o tema de José Cid cantado em inglês que talvez revele melhor a sua dimensão camaleónica.
Aqui fica o tema “ Barbara”, com letra e música de José Cid e orquestração de Mike Seargent, lado B do super êxito “ Um grande, grande amor" ( Orfeu YSAT 5100 -.” (canção concorrente ao festival Eurovisão da Canção de 1980). Trata-se de uma bela canção Pop Disco Sound, capaz de animar ainda hoje os bailes de liceu. Sem dúvida, que quem não conhecer o tema ficará surpreendido....
Sobre a letra da canção parece não haver muito a dizer: Não vamos falar muito de Barbara... por quem José Cid tanto chama no excerto da canção que hoje deixamos à consideração do leitor... Também nós queremos chamar por Barbara, e também nós sentimos a sua falta... embora num cenário não tão festivaleiro como este que José Cid nos oferece para falar sobre um tema de solidão e de posterior reencontro.

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sábado, 13 de dezembro de 2008

Milho Verde

Continuamos a querer surpreender quem, por acaso, nos leia. Na mensagem de hoje, em vez de sermos nós a homenagear directamente o artista José Cid, deixamos antes um registo de uma homenagem que o próprio José Cid fez à música de raiz popular portuguesa, através de uma abordagem excepcional de um dos temas mais conhecidos do cancioneiro popular português: Milho Verde. Quem não conhece? Certamente já todos nós demos por nós a cantar esta famosa melodia, popularizada por José Afonso no seu mítico albúm “Cantigas do Maio” de 1971. O que nem todos conhecerão, certamente, é o encontro informal entre o nosso cancioneiro popular e o jazz que José Cid nos oferece no seu disco de 1998 e, mais concretamente, na sua peculiar versão dessa canção..
Com o disco “Cais do Sodré" ( BMG 1998), todo ele gravado ao primeiro take ( tal como um verdadeiro disco de jazz assim o impõe), José Cid, mostra melhor do que em qualquer um outro disco, o verdadeiro gosto que tem em improvisar as suas canções enquanto canta.
Tal como refere na contracapa do seu disco de 1987 (“Fado de Sempre”), o fado e o jazz são as duas formas que José Cid mais gosta de abordar pela sua simplicidade, pureza e também, claro está, pela forma como esses dois géneros musicais conduzem o intérprete ao improviso. Pois bem, no tema que hoje partilhamos com o leitor, podemos encontrar um tema tradicional vestido com uma roupagem de jazz, mas sem nunca perder de vista a estrutura da canção original e sem desrespeitar a sua primitiva génese. Aliás, a própria flauta que acompanha os devaneios vocais de José Cid neste tema também ela transporta o ouvinte para o imaginário dos campos de “verdes trigais em flor” e do universo campestre.
Após a audição deste tema, um melómano mais versátil tanto poderá decidir ouvir logo a seguir um disco do Grupo de Folclore do Rochão ou um disco da orquestra de jazz Count Basie, que ficará sempre satisfeito. Da nossa parte, sugerimos em primeiro lugar, a audição do pequeno excerto do tema que colocamos à disposição do leitor, e posteriormente a audição da totalidade deste disco de jazz de José Cid, no qual o Artista assina um dos seus melhores registos vocais de sempre.
Por fim, resta-nos realçar que não é fácil fazer uma versão de um tema original e muito menos de um tema do universo popular de um povo, com todo o simbolismo geracional que as canções populares trazem consigo. Entendemos, numa opinião modesta, que para versionar um tema jamais se poderá cair no ponto do irreconhecível. Deve ser sim, aquilo que o Artista tão bem soube fazer neste tema: vestir o nú da canção sem a mudar de cor. Na nossa opinião, este tema é simplesmente fabuloso e a verdadeira prova de que D. Camaleão é também ele um verdadeiro improvisador.


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domingo, 7 de dezembro de 2008

Gabriela Cravo e Canela

E estamos de regresso… com o objectivo de revelar um pouco mais do lado menos conhecido de José Cid, não fosse a canção escolhida para hoje pertencente a um dos discos mais raros e procurados da música popular portuguesa. Referimo-nos ao primeiro disco a solo de José Cid, simplesmente “José Cid” (Columbia/VC, 1971) 8E 062 – 40228), também conhecido como o “álbum da Palha” ( assim designado devido ao facto de na capa do disco José Cid aparecer vestido de palha).
Temos consciência de que muitos leitores nos acusarão de sermos muito repetitivos e de batermos constantemente na mesma tecla. No entanto, também não podemos deixar de referir novamente que José Cid no seu primeiro disco a solo não deixou de primar também pela inovação e novidade: conforme o próprio Artista refere em entrevista recente, quando apareceram as máquinas de gravação de oito pistas José Cid foi desde logo o primeiro músico a utilizá-las, tendo, inclusivé, gravado o álbum sozinho, tocando os instrumentos todos (órgão, baixo, guitarras e pianos) incluindo os coros. Quando o disco já estava pronto, na Valentim de Carvalho, Pedro Osório ouviu o trabalho e disse que queria colocar ainda um arranjo de orquestra nas canções, chegando-se assim ao resultado final do disco.
Quando “Palha” saiu para o mercado em Maio de 1971, José Cid era já a figura dominante do Quarteto 1111, tendo este disco seguido em parte a linha do primeiro albúm do Quarteto, editado um ano antes, em Janeiro de 1970. Contudo, simultaneamente, já se nota neste primeiro disco a solo de José uma certa dualidade musical, ou se quiserem, um toque de diferença em relação às anteriores canções do Quarteto. Musicalmente falando, podemos arriscar em dizer que este disco segue duas vertentes: uma vertente mais popular, numa onda de folk music, e uma vertente de experimentalismo com a utilização de sons electro-acústicos, em temas como “Lisboa Ano 3000” ou “ Olá Vampiro Bom” no qual José Cid utiliza muito o órgão eléctrico para explorar efeitos sonoros (e de onde se encontra já alguma reminiscência de algum rock espacial, mais tarde tão bem explorado no álbum “10000 mil anos depois entre Vénus e Marte”).
Cinco dos temas que compõem este disco podem ser encontrados na colectânea da Valentim de Carvalho “ O melhor de José Cid”. No entanto, os restantes 7 continuam por ver a luz do dia em edição de CD, facto que tem alimentado a procura e a especulação de preços de venda do álbum original em vinil “Palha” em leilões e sites especializados de música. Da nossa parte, e porque nos parece justo para quem não conheça, iremos deixar aqui um excerto de um dos temas menos conhecidos do disco: Gabriela, Cravo e Canela, inspirado na obra de Jorge Amado.
Ironicamente, pese embora o romance de Jorge Amado já fosse um sucesso há décadas ao tempo em que José Cid compôs esse tema, não deixa de ser também interessante referir que já em 1971, muitos anos antes da exibição da telenovela com o mesmo nome em Portugal (que em muito contribuiu para a leitura posterior do livro) José Cid canta sobre um romance que só mais tarde é que vem a ser (re)conhecido em Portugal. ( Não se passa o mesmo com José Cid ?)
Não nos iremos alongar na abordagem da canção escolhida para hoje. O refrão e a entoação que José Cid dá ao mesmo são apaixonantes e o resumo da história de Gabriela é desde logo anunciado nos primeiros segundos do tema : “Oh! que fizeste, sultão, da minha alegre menina? é a pergunta repetida mais do que uma vez por José Cid nesta canção. Gabriela retirada da sua pobre terra natal para, por fim, conhecer toda a riqueza, os vestidos de diamantes, o estatuto de rainha, em troca da ilusão do amor sendo,mais tarde,devolvida à sua terra, de volta aos seus vestidos de chita e ao seu inocente pensar, aos seus suspiros no leito e à sua ânsia de amar, longe das jóias e das ilusões do trono em que viveu. A conclusão do tema é bem clara: Jorge Amado é que tinha razão: apesar de tudo o que tentaram fazer de Gabriela, o certo é que, como conclui José Cid: A verdadeira Gabriela, é feita de cravo e canela !
Aqui fica um (grande) excerto da canção, retirada directamente do vinil.
(Obrigado, José Mário! )




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Capa do disco retirada da colecção particular do autor

sábado, 25 de outubro de 2008

D. Camaleão - José Cid -

José Cid. Será que, passados quarenta anos de canções, ainda é necessário escrever mais meia dúzia de linhas sobre um homem que ao longo das últimas cinco décadas mais não fez do que escrever também ele próprio várias páginas da história da música portuguesa?
Entendemos que sim. No entanto, a sinceridade impõe-se desde já: temos que referir que José Cid sempre esteve (e sempre estará) longe de ser uma figura unânime no panorama musical português. Tal como o Artista canta no tema “ Epitáfio”, José Cid continua a ser, como sempre foi, um incompreendido na música portuguesa, pese embora o novo “boom” e sucesso que actualmente voltou a ter. Por muito que custe admitir a muita boa gente, que não gosta do estilo ou das declarações polémicas do artista, José Cid sempre esteve à frente do seu tempo e, claro, à frente do tempo de todos os outros músicos.
José Cid foi um inovador a todos os níveis, não só pelos instrumentos que desde muito cedo introduziu nas canções que compunha mas, acima de tudo, em termos musicais propriamente ditos. Numa perspectiva mais arrojada, podemos mesmo dizer que José Cid( e o Quarteto 1111) é a linha de divisão entre tudo aquilo que se fez no período temporal que mediou o antes e o depois do Rock português.
Antes do Quarteto 1111, não existia propriamente identidade do chamado “rock” português ( até então claramente importado do exterior, de raízes anglo-saxónicas baseado, ou em versões coladas aos temas dos compositores estrangeiros mais famosos da altura ou então em mesclas de musica ligeira e pop rock de temas tradicionais portugueses de conteúdo oco). Com o Quarteto 1111, e especialmente com José Cid enquanto figura transversal de todos os projectos a que esteve ligado, a história do Rock português mudará para sempre.
Foi com José Cid e com o Quarteto 1111, que surgiu o verdadeiro rock português de identidade própria.De certa forma, Rui Veloso começou onde José Cid parou. Conforme diz o Artista em entrevista, quando surgiu o chamado boom do rock português ( com o estrondoso sucesso de Rui Veloso com o single “ Chico Fininho” e a rockmania portuguesa associada a loucos bailes de liceu ) já José Cid tinha composto e gravado 10(mil)anos antes( e em português) o que estes novos músicos começavam então a tentar gravar. Foi nesta altura, início dos anos 80, que o Artista optou por explorar novas sonoridades (como é seu apanágio) ou a dedicar-se a outros projectos, que com o passar dos anos, lhe deram uma dimensão camaleónica, uma capacidade de surpreender constantemente todos os seus seguidores, explorando todos os estilos de música inimagináveis (sempre com qualidade). Da nossa parte, afirmamos categoricamente que José Cid é o pai do Rock português ( qual avô ? Qual mãe ?) e que necessariamente, todos os que se seguiram têm que ser considerados seus filhos ou, para aqueles que não gostam do Artista, enteados.
José Cid, tendo sido um inovador e explorador de novos caminhos, deixou a sua marca na história da música portuguesa, de tal forma que a música portuguesa sem a sua existência não teria sido seguramente tão rica se José Cid, enquanto núcleo duro do Quarteto 1111, não tivesse aparecido antes.
Através deste blog pretendemos, sem entrar em fanatismos e Cidmanias, não só prestar um sincero tributo ao Artista, mas também divulgar “ a pouco e pouco” a obra do Artista, realçando a versatilidade de José Cid, enquanto explorador de todos os estilos que a música nos pode oferecer. Passaremos pelo Rock Progressivo, pela música popular, pelo jazz, fado, musica ligeira, pop, e por todos os outros estilos de música, que de momento nos escapam devido à imensidão da obra do Artista. Para já, como não poderia deixar de ser, deixamos um excerto do tema “D. Camaleão” ( Lado B do single “Romântico mas não trôpego”, Orfeu KST 581, de 1977), que dá nome a este blog. Fiquem então com esta história de D. Camaleão (não é nenhum auto retrato do artista), um tema simples onde a letra assume um papel fundamental. Voltaremos brevemente ( sempre românticos e de preferência nunca trôpegos...)

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